#03 Como o Levi explodiu a minha mente

O que te impede de sonhar?

Compartilhei a conversa que tive com a Egnalda e abri meu coração. Falei da minha ira em relação à exploração do conhecimento preto e disse que me sentia um objeto de um sistema patriarcal capitalista de supremacia branca, que explorata e subjulga todos que ocupam a base da pirâmide social.

Revelei que, apesar de ter aceitado algumas oportunidades, comecei a estudar o mercado e aprendi a me autovalorizar. Contei, toda orgulhosa, que cobrei R$400 para dar uma palestra para uma agência de comunicação sobre ODS da ONU.

  • Levi riu.
  • Levi riu muito.
  • Levi continuou rindo.
  • Levi não parava de rir.

Eu ri junto, mas sem entender o motivo… Então Levi me explicou:

  • Amanda, você tem noção de quem você é? Você é uma Forbes Under 30, Embaixadora da ONU, ativista internacional! Seu nome tem um alto valor no mercado, mas você estabeleceu um preço muito baixo para si. A galera rica conversa entre eles, sabia? Agora eles devem estar mandando seu contato num grupo de Whatsapp e falando: convida a Amanda, ela é baratinha.

Eu não sei traduzir em palavras o que eu senti… Indignação, revolta, ira, raiva e incompreensão inundaram meu coração!

“Podemos até colocar um preço no nosso conhecimento, mas é impossível mensurar o valor.” (Rodrigo Nunes)

Apesar de me dar um chacoalhão, Levi foi fofo. Ele me explicou que o fato de eu ter ficado contente por receber R$400 não era apenas ingenuidade da minha parte, mas é resultado de um sistema racista que ultra valoriza o trampo de pessoas brancas.

Doeu ouvir isso. Doeu ser atravessada pelo racismo estrutural mais uma vez. Doeu saber que eu era apenas uma marionete de um sistema excludente e está doendo compartilhar essa história com vocês.

Me senti profundamente injustiçada, rebaixada, humilhada… Eu pensava que, ao aceitar os convites voluntários das empresas, eu estava fazendo um bem social, contribuindo para a criação de um mundo livre de preconceitos, julgamentos e segregação.

Mas não. Eu estava contribuindo para a exploração do meu povo.

Se eu, enquanto Forbes Under 30 e jovem embaixadora da ONU, não tinha consciência de que poderia precificar o meu trabalho, imagina meus irmãos da quebrada! Além da falta de infraestrutura e de educação de qualidade, existem diversos muros invisíveis que impedem que esse conhecimento chegue na ponta!

Minha alma está sangrando, mas não foi o Levi quem me cortou. Esse corte foi causado pelos 354 anos de escravidão que o Brasil viveu, mas que o mito da democracia racial colocou um band-aid. Levi apenas tirou o curativo e jogou sal no machucado.

Ardeu. Ardeu muito. Ainda está ardendo.

Mas o sal cura, não é?

“Permitam-me dizer por que vocês estão aqui. Vocês estão aqui para ser o sal que traz o sabor divino à terra. Se perderem a capacidade de salgar, como as pessoas poderão sentir o tempero da vida dedicada a Deus? Vocês não terão mais utilidade e acabarão no lixo. Há uma outra maneira de dizer a mesma coisa: vocês estão aqui para ser luz, para trazer as cores de Deus ao mundo. Deus não é um segredo a ser guardado. Vamos torná-lo público, tão público quanto uma cidade num plano elevado. Se faço de vocês portadores da luz, não pensem que é para escondê-los debaixo de um balde virado. Quero posicioná-los onde todos possam vê-los. Agora que estão no alto do morro, onde todos conseguem enxergá-los, tratem de brilhar! Mantenham sua casa aberta. Que a generosidade seja a marca da vida de vocês. Mostrando-se acessíveis aos outros, vocês motivarão as pessoas a se aproximar de Deus, o generoso Pai do céu”. (Mateus 5:13–16 — Bíblia A Mensagem)

Tem uma ira santa queimando em meu coração! Não está sendo fácil expor a minha história e revelar o senti, mas não vou me calar. Sei que, assim como eu, muitos pretos com um alto potencial e um grande sonho estão sendo explorados pelo sistema racista.

Genocídio não é só a morte por tiro. Genocídio é toda a lógica de exploração baseada na identidade racial que faz com que o meu trabalho seja subvalorizado pelo sistema.

Será que, assim como a galera que me chamava para “palestrar voluntariamente”, você está contribuindo para a perpetuação do racismo?

Um dos maiores desafios para combater o racismo estrutural é o fato dele estar impregnado nas estruturas sociais da nossa nação. A reprodução do comportamento racista ultrapassa o indivíduo e as instituições, ele vem das estruturas.

  • Abordar esse assunto dói.
  • Falar sobre privilégios incomoda.
  • Trazer essa narrativa é desconfortável.

No entanto, estou disposta a arrancar o curativo, expor o machucado e assim como o Levi, jogar sal na ferida. Sei que vai doer, mas trará cura! Não só para mim, mas também para os meus.

“Que das minhas feridas, saia poder pra curar. Que cada hora perdida, me lembre que não é pra eu parar! ” (Rodolfo Abrantes, Até que a casa esteja cheia)

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Formada em Relações Internacionais, Amanda empreende o PerifaSustentavel, é apresentadora do Direto da Base, colunista da Agência Jovem de Notícias e do Um só Planeta. Liderança Forbes Under 30, Amanda tem o objetivo de mobilizar jovens para construírem um planeta inclusivo, colaborativo e sustentável, através das redes Embaixadores da Juventude da ONU, Global Shapers Community e United People Global.

#ForbesUnder 30 | Jovem Embaixadora da ONU | Ecofeminista Antirracista

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